a obrigação de sermos alegres no verão

Tal como no Natal, gostar do verão é uma coisa obrigatória. 
Ver as luzinhas a brilhar, imaginar a neve da Lapónia e ficar em pulgas com a noite de Natal estão no mesmo patamar de apreciar a areia colada em todas as partes do corpo, de trazermos no corpo sal suficiente para cozinhar 2 ou 3 refeições e de delirar com os chinelos estacionados debaixo da mesa da esplanada. Tudo coisas que não me estimulam porque são coisas que só fazem sentido com companhia. 

Durante uma década, os meus dias de verão foram passados a trabalhar ao sol ou em armazéns que reservavam em si o calor que o sol trazia. Eu gosto de trabalhar, mas não naqueles métiers que tinham sido mais apropriados para um rapaz. 

Depois dessa década, conquistei o direito a férias longe dos trabalhos de puxar pelos músculos. E em casa dos meus pais, lia muito, sobretudo durante a madrugada, para aproveitar o fresco e o silêncio de uma casa que durante o dia parecia um campo de batalha. Foi aí que apanhei o hábito de ler até o sol nascer. 

Ainda hoje mantenho esse hábito porque, nos dias de verão, a solidão cola-se à minha sombra e fica ali a mirar-me com uns olhos de juiz existencial, a apontar-me o que não fiz suficientemente, as vezes em que não estendi a mão e em que amei menos. Mas a história pode e deve ser contada de outra forma, mais verdadeira por sinal.

Durante a madrugada, estou sozinha e em paz, porque toda a gente está a dormir. E a dormir não existimos. A dormir não se ama ou desama ninguém.

Num mundo perfeito, com os primeiros raios de sol, pegava na mão dela e íamos por aí, ao sol ou à sombra. Mas em vez disso, leio livros até o céu ficar claro. Nessa altura vou dormir e acordo quando o sol já começa a fazer a curva descendente. E durmo muito, porque a dormir não sinto a ausência da sua mão.


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